
(Para o Clube de Leitura do Sírio)
Não fora o autor um gênio, este poderá ser mais um mero romance policial ou mesmo um tema sobrenatural.
O curioso é que, segundo consta, o livro foi escrito atendendo à uma “encomenda” de um editor americano. E teve por argumento um fato verdadeiro: quando Oscar Wild, em visita ao estúdio de um pintor amigo, comentou sobre a beleza do retrato que acabara de ser pintado dizendo que seria uma pena que o belo modelo um dia envelheceria. Concordando, o pintor aduziu que seria maravilhoso se o modelo pudesse permanecer com estava naquele momento e que a imagem do quadro é que sofresse as marcas do tempo.
A partir daí, a genialidade do autor se impõe. E também a sua personalidade, controversa sem dúvida, mas brilhante certamente. Sua técnica narrativa mantém o leitor (eu pelo menos) preso, não só aos fatos mas aos comentários e reflexões num balanço entre tensão dos acontecimentos, descrições precisas, análises psicológicas, sociais, políticas e críticas, muitas críticas. Com humor, sarcasmo, perspicácia, ironia, e sobretudo amoralidade, retrata um estamento da sociedade da época, não perdoando nada nem ninguém, mas com profundidade de argumentos.
Em minha opinião, conhecendo um pouquinho da vida do autor, há muito de biográfico nos três personagens principais: Dorian, Harry, e o próprio Basilio. Principalmente Harry e Dorian, nos diálogos e reflexões, revelam o comportamento social e pessoal de Oscar Wild, suas convicções e sobretudo seus “ vícios”.
É impressionante a cultura do autor. Mas também a sua vaidade expressa na exuberância de conhecimentos. Tive a paciência de anotar os campos em que ele revela conhecimento pelos seus comentários. Incrível: perfumaria, botânica, joalheria, gemologia, religião, misticismo, artes plásticas, literatura, Historia, mitologia, tapeçaria, musicam moda e decoração, tecelagem, genealogia, geografia, estética…(e sobre este último, o esteticismo como movimento artístico, que parece ter tido no autor um adepto e propagador).
À técnica narrativa se adiciona a criatividade de formular conceitos em frases lapidares. Aliás, poucas páginas não as têm. As antíteses, metáforas, paradoxos são usados a todo tempo, dando sabor- e humor – ao que poderia ser enfadonho.
Chocante, como todo libertino é para os moralistas de qualquer época, as opiniões emitidas não só sobre os valores e comportamentos sociais são de profunda agudeza. As opiniões de Harry sobre as mulheres – até divertem – pois certamente tornam as feministas suas inimigas não só mortais, mas também ensandecidas post-mortem. A moralidade e costumes da época são detonados com a ironia da revelação da sua hipocrisia.
Sobre a estória – Nada comentar sobre a estória é uma forma de manter a curiosidade e um convite à leitura. Para mim obrigatória. Ler pela segunda vez ( não há muito o tinha lido) nem por isso deixou de manter-me intensamente preso à narrativa e descobrindo novas virtudes do texto. O que acredito acontecerá com a maioria.
Sobre o autor: amoral, cínico, devasso, safo, corruptor, sibarita, homo-hetero-bi-trans-pan-sexual, dissimulado, hipócrita, bom-vivan, hedonista, dandy, dissoluto, libertino……mas cultíssimo e genial.