LITERATURA

De Downing Street, bondes e fogos.

 

  • Vi, numa reportagem na TV sobre o novo Primeiro Ministro Britânico, Boris Johnson, saindo da residência oficial no número 10 da Downing Street.
  • Vi, no Whats app, um vídeo mostrando o uso de centenas de drones iluminados, formando no céu da noite o esplendor de centenas e centenas de brilhos, que se movimentavam em todas as direções.
  • Vi, em Santos, o bondinho turístico, o mesmo bonde aberto que usei na juventude.

O que me chamou a atenção na reportagem sobre o Primeiro Ministro não foram os comentários intermináveis sobre o Brexit. Foram as duas peças de ferro, colocadas no chão, bem abaixo das colunas que ladeiam a porta principal.  Sabem o que seriam? Embora sejam bonitas peças de ferro fundido, elas não são elementos decorativos.

E fizeram lembrar-me da minha casa, na City Lapa, construída numa rua de terra, sem calçamento algum. Terra pura.  Era apenas uma dessas peças, não duas. Mas suficiente. Junto ao portão de entrada, chumbada no cimento da calçada.

Quando eu caminhava pelas ruas mais antigas do bairro, todas já pavimentadas com paralelepípedos (ou macadames como alguns diziam), eu estranhava que várias casas tinham aquela mesma peça, cravada nas calçadas de cimento, junto às portas de entrada.

Estranhava porque achava coisa antiga. Por quê?  Bem, porque a minha rua era “uma rua de terra”, e isso significava que as pessoas sujavam seus sapatos andando por ela. E quando chovia, os sapatos ficavam cheios de lama grudada nas solas. E quem não estava calçando galochas e as tirava antes de entrar na casa, raspava a sola dos sapatos nas lâminas daquela peça cravada junto ao portão, para livrá-los do barro. E elas se chamavam “limpa-pés”. E o sutil ruído do sapato raspando pelas lâminas era o sinal de que alguém chegou. Londres é toda calçada e muito bem calçada. Mas os limpa-pés continuam lá, a me dizer: nós temos passado, e o respeitamos.

No Whats app, aquelas imagens de centenas de drones iluminados, me remeteram ao que vi, mais que vi, senti. A queima de fogos. Aqueles os fogos de artifício que marcavam momentos importantes para a gente. Fogos que eram estourados no alvorecer do dia de Páscoa, quando a procissão de Maria e a procissão de Jesus – que eu acompanhava como Cruzado, se encontravam: era a Procissão do Encontro. Encontro da Mãe com o Filho, e sua Ressurreição. Ou os fogos nos fim dos jogos da Copa, quando o Brasil vencia, e parecia que toda a população comemorava e se abraçava.  E fogos havia quando se comemoravam datas cívicas, como o Dia da Independência, o nove de julho, e até mesmo o 25 de Janeiro de 54 – quarto centenário da fundação da Cidade, ou na abertura do Parque Xangai.

Hoje não há mais fogos. Proibidos estão, em nome de uma sociedade correto, aperfeiçoada, inclusiva. Para isso parece que excluíram a Fé, patriotismo, a solidariedade, enfim, a própria memória.

Os fogos chineses são bonitos, sem dúvida. Mas não provocam aquele êxtase, nem aquela magia que eu sentia quando se queimavam os fogos de artifício de verdade, aqueles, ironicamente, criados pelos próprios Chineses.

 

Em Santos, vi bondinho turístico, o mesmo bonde aberto que ia da Lapa à Vila Anastácio, e que eu “chocava” num trecho da Rua 12 de outubro, saindo da escola.

Além do estribo (onde se pisava para adentrar) e do balaustre (barras de madeira, verticais, nas quais se segurava) havia mais dois equipamentos.  De cada lado, e acima, perto do teto, uma tira de couro (ou corda), suspensa por ganchos metálicos, ia do último ao primeiro banco. Elas terminavam num “equipamento” mecânico, que não sei o nome, mas quando algum passageiro “puxava” a cordinha, tocava uma campainha, ou sinal, avisando o motorneiro (era como se chamava o condutor do bonde) para parar no próximo ponto.

E tinha outro equipamento, também suspenso por toda a extensão do bonde. Era um longo cabo, que ao longo tinha penduradas alças ou tiras de couro.  Cada vez que o cobrador (era o profissional uniformizado que recebia o valor das passagens em dinheiro vivo) recebia o pagamento de um passageiro, puxava uma daquelas alças, e na ponta o equipamento, com um “Click” suficientemente alto, fazia o registro, e um numerador mecânico mudava: 33, 34, 35.  E não raros passageiros, até por distração, iam acompanhando os movimentos do cobrador. Um pagante, uma puxada. Dois Pagantes, duas puxadas. Três pagantes, uma, duas, três puxadas. E assim iam passageiros e cobrador na paz do senhor e conduzidos pelo motorneiro pelos trilhos bem fixados.

Vendo melhor agora, vejo que aquela não era apenas uma máquina registradora do transporte e pagamento de cada passageiro.  Era aquilo de que hoje tanto de fala e se discursa, mas nem tanto se pratica: transparência, competência, controle social.

Pois é. Vi vivi, ou me contaram.


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