
Foi um prazer renovado reler a “Retórica das Paixões”. Nele, o’ objetivo de Aristóteles era ensinar como usar as paixões humanas para tornar mais eficiente a Retórica, ou seja, o poder do convencimento pelas palavras e argumentos. Embora esse objetivo pareça menos nobre, ou no mínimo mais prático, há que se compreender que na Grécia da sua época, (384 a 322 aC. Sec. IV-aC) a retórica assumia uma importância enorme, vez que através dela se construía e consolidava a Democracia. Era através da eficiência ou eficácia dos discursos que se construiu o arcabouço das leis democráticas e a justiça dos julgamentos.
Para Aristóteles era preciso conhecer as paixões humanas – seus significados e motivações – e saber usá-las, e a retórica era arte que tinha por fim um julgamento ou veredicto, e para isso provocar na platéia as reações de apoio a proposta do orador, (ou negação da do opositor) a qual seria mais ou menos aceita, segundo sua habilidade em usar essas paixões.
Hoje, nada tão distante no tempo (uns 2.300 anos mais ou menos), mas nada tão próximo das circunstâncias (atuais, pelo menos no Brasil).
Nós não freqüentamos mais a ágora, mas sim freqüentamos assiduamente os canais do YouTube, os Facebooks, os WhatsApps, os Instagrams, e as emissoras de TV e Rádio.
E quem faz os discursos de hoje não são os pensadores, os intelectuais, os homens de cultura, os tribunos e demais homens de bem daquele tempo. Hoje são os “qualquer um”, os comentaristas de qualquer assunto, e os especialistas em generalidades, os jornalistas sem especialidade alguma, e, sobretudo os tais “influenciadores” (seja lá o que isto quer dizer).
E o bom resultado desses personagens atuais me parecem ligados aos ensinamentos de Aristóteles, pois as respostas do público a esses discursos não são racionais, não são julgamentos fruto de analise, senão são frutos dos reflexos imediatos, das reações irrefletidas as quais por natureza são comandados pelas paixões. Os ânimos são exacerbados na medida em que tocados em suas paixões. Daí os extremismos, os radicalismos, e vários outros ismos negativos.
Nesse pequeno livro (em tamanho) de apenas 73 páginas – e nestas estão o texto original em grego e a tradução para o português – Aristóteles já na sua introdução aborda “do caráter do orador e das paixões do ouvinte”. Uma análise dos valores na comunicação, quando essa matéria sequer era pensada. E vai sendo analisada cada uma das “paixões”, expondo a causa de cada uma delas segundo quem a sente, e a quem é dirigida e os porquês. Assim, ele fala da Cólera, da Calma, do Amor e do Ódio, do Temor e da Confiança, da Vergonha e da Impudência, do Favor, da Compaixão, da Inveja, Da Emulação e do Desprezo.
Nestes tempos em que é moda falar-se na importância o “outro”, nos nóis contra eles, do “diálogo” até de coisas inanimadas (principalmente para os curadores de arte), este livro nos mostra que a “a paixão é, portanto, a relação com o outro e representação interiorizada da diferença entre nós e esse outro”. A paixão é a própria alteralidade , a alternativa que não se fará passar por tal, a relação humana que põe em dificuldade o homem e, eventualmente, o oporá a si mesmo”. Esta é uma frase do excelente Prefácio de Michel Meyer, precedido da esclarecedora Introdução por Isis Borges da Fonseca, que também fez a tradução direta do grego.
Para mim, vale à pena ler este “livrinho”, nesta edição da Martins Fontes, que nos leva a pelo menos, compreender um pouco as reações humanas.