
De Mary DelPriore
Para o Clube de Leitura do Sírio
Nos primórdios existia a Literatura, a narrativa. Narrativa de fatos reais ou imaginários.
Aí alguém resolveu narrar fatos reais, contar o que realmente havia acontecido, fruto de uma pesquisa e não apenas da imaginação. Parece que um tal de Heródoto, no Século V antes de Cristo, resolveu escrever sobre a invasão da Grécia pela Pérsia – o que de fato tinha ocorrido – e ele deu (ou deram) às suas narrativas o nome de Histórias (de Heródoto). Criava-se, assim, uma nova forma de Literatura, que passaram a chamar de História e esta se separou da literatura e virou uma Ciência, com metodologias próprias.
Separaram-se mais ou menos porque, até hoje, Literatura e História parecem continuar inseparáveis. Afinal, ambas são narrativas. E todo esse intróito para perguntar: o livro do mês do nosso Clube de Leitura é uma obra de Literatura ou uma obra de História?
Quando eu cursava, às vezes eu preferia optar por uma definição bem mais tosca: se a narrativa era sobre um fato realmente ocorrido, o texto era maçante, cheio de citações, muito filosófico, numa linguagem um tanto hermética e com parágrafos enormes, próprios da Academia… era História.
Mas aí comecei a ler excelentes livros, objetivos, ordenados, numa narrativa atraente sobre fatos ocorridos e comprovados, ou seja, História. Mas com o sabor da boa Literatura.
Quando temas históricos passaram a ser objeto de narrativa também de jornalistas, sociólogos e outros – que não acadêmicos da História – a história foi outra. Livros sobre História se popularizaram e até alguns são best-sellers, porque escritos para um público em geral, como por Laurentino Gomes.
Eu acho que nosso Príncipe Maldito não é um Romance Histórico – como assim classificam obras de romancista que narram enredos a partir de fatos históricos – como Maurice Druon, que na década de 60 escreveu a série “Os reis malditos” (coincidência no titulo?) que me deleitaram.
Pela qualificação acadêmica da autora, pela profundidade da pesquisa, fundamentação e contraposição das diversas fontes além da extensa bibliografia, considerar essa narrativa apenas como um romance histórico talvez seria menosprezar e desconsiderar a evidência de se tratar de uma obra de História, com todos os requisitos metodológicos.
Por outro lado, a qualidade literária da autora parece ser indiscutível. Ela ordena os fatos, define os perfis, vai revelando o enredo e, com rica forma narrativa, nos mantém presos ao texto. Pelo menos a mim prendeu. Acompanhei-o como a uma telenovela, apesar do seu final já ser conhecido.
A sensação que a leitura deu não é a de quem conta está “de fora” dos acontecimentos – comuns nos textos de História (até por obrigação de isenção). Não é a de quem está “por dentro” do que ocorre, porém está “dentro” dos próprios acontecimentos.
É curioso como, ao retratar acontecimentos históricos e eventos que definiram os destinos da nação, a autora não dispensa o caráter humano da realidade. Não são o imperador, a imperatriz, princesas e príncipes, marqueses, duques e barões, nem generalíssimos, nem ministros, nem ídolos políticos, nem pais da pátria, nem águia de Haia, mas pessoas. Não é uma dinastia, mas uma família – formada por serem humanos.
Creio que O príncipe maldito retrata de forma bastante “realista” (ops! desculpem-me os republicanos) um período dramático da nossa História, quando a ausência de autênticas lideranças permite a derrocada do regime monárquico. E falsas lideranças e o corporativismo levam a um golpe de estado para implantar um regime tão ausente de lideranças quanto.
Comparando a pessoa do Chefe de Estado daquela época com o atual dá profunda tristeza e desesperança.
O que seria melhor? “O rei morreu. Viva o Rei” ou “O mito se foi. Viva o mito”!
Ah! Adivinhem como votei no plebiscito de 21 de abril de 1993?