Literatura

Contra mim, de Valter Hugo Mãe

Contra mim

Valter Hugo Mãe

Para o Clube de Leitura do Sírio

Surpreendi-me. Como costumo fazer, procurei não buscar informações sobre o livro que esperava fosse um romance.  Mas deparei-me com uma obra biográfica, ou melhor, uma autobiografia da infância, puberdade e adolescência do autor. Isto considerando o conteúdo que expõe fatos através do tempo, numa exposição bem na ordem cronológica.

Mais algumas páginas e conclui que não era um romance autobiográfico comum. E nem um romance era. Concluí certo ou errado que estava lendo um livro de crônicas. Sim, porque o estilo é: cada capítulo uma crônica.

Segundo os entendidos, se crônica é o estilo literário que, partindo de um fato real, geralmente do cotidiano e mesmo corriqueiro, não só expõem os fatos, mas analisa e tece críticas, mesmo que subliminares, aos eventos, as circunstâncias, aos valores sociais e aos personagens, acho que estava diante de um livro de crônicas. Pois cada capítulo narra eventos vivenciados, em situação determinada em determinado local, em épocas definidas e presenciados pelo mesmo personagem (o próprio autor) que está sempre presente, como “testemunha ocular da história”, e da “História” social recente de Portugal.

Mas junto com os fatos narrados, nos são oferecidos muitos outros elementos: divagações, analogias, interpretações, explorações de sentidos e sentimentos.

Voltando aos entendidos, outros consideram que o valor da crônica está não no fato reportado, mas na forma como o é. Então, deixando de lado o conteúdo das estórias contadas temos da forma. E, neste caso, esplendor da forma com a poética de Valter Hugo Mãe. Pelo domínio das figuras de linguagem, pela maneira como utiliza as palavras – dando-lhes mais ou novos significados, pela maneira como nos conduz para além do fato narrado e das divagações que nos levam por um imaginário bastante real torna um fato banal num eloqüente testemunho.

 

Se a narrativa for real, como o gosto de uma criança por colecionar palavras, está explicado que essa criança só poderia mesmo redundar num mestre da escrita. Lá pelas tantas da leitura o conteúdo das estórias ficou num plano menos importante. Na verdade, ele não me despertava tanto o interesse ou a curiosidade sobre o que iria acontecer. Importante passou a ser fruir da forma da escrita. Parecia-me que cada frase fora trabalhada com esmero, como que em busca da sua forma perfeita.  Entretanto, sem a menor pretensão erudita e com espontaneidade, fluidez, naturalidade, singeleza até.

 

Evidente que muitas surpresas advieram do conteúdo, levando-me a conhecer melhor os aspectos sociais da vida portuguesa, como por exemplo, o enorme sucesso e a importância da influência da televisão brasileira na formação da opinião e construção de valores públicos. Sabia do sucesso, mas não tão enorme. Tantas são as citações e tantos os elogios às novelas, atores, cantores e músicos brasileiros que, (maldosamente falando) parecem dirigidos a garantir atração do mercado de leitores no Brasil.

 

Outro fato marcante: em plenos anos setenta, alunos eram castigados pelos professores com reguadas, palmatórias e tapas na cara! Até mesmo ao ponto de sofrerem fraturas! Estas e outras narrativas levaram-me a concluir que o atraso de Portugal era realmente grande. Esse Portugal dos anos setenta e oitenta era muito mais parecido com o Brasil dos anos quarenta e cinqüenta. O conservadorismo e a ditadura mantiveram o País duas ou três décadas de atraso em relação ao Brasil – que não lá um bom exemplo de desenvolvimento social.  Posso afirmar porque vivi nesse Brasil, onde as moças ainda faziam o enxoval sem antes arrumar o marido, quando ainda se distribuíam santinhos religiosos, adolescentes queriam conhecer ainda como seria o sexo, e a Coca-Cola já existia aqui desde os fins dos anos quarenta.

E numa sociedade conservadora, o preconceito vicejava. O despeito e a inveja por uma França “onde todos são ricos”, a disputa com uma Espanha onde havia reis e príncipes e andavam a cavalo e vestiam ouro, luziam ao sol, eram ricos… caçavam…usavam, peles…casavam-se bêbados”. Ou ainda o preconceito contra os africanos cujas crianças nasciam de ovos. E a admiração pelo Brasil – da musica, das praias, sol, mulheres mais… Fica também patente a nostalgia ou a tristeza  característica de uma gente que sempre verá partidas e a constante espera pelo retorno. O sumiço do Pai sem pré-aviso ou explicação e seu retorno idem, parece uma chacota com o partir e esperar.

Mas algumas partes das narrativas não me agradaram como a descrição da infindável árvore genealógica ou as férias chatas.  Mas amplamente compensadas pelas figuras criadas, tão sutis, tão criativas que se espalham por todo o texto, sobretudo na visão de uma criança? Que tal: achar que “Póvoa do Varzim era a França”; que “eram poucos pais para muitos filhos”; que “não era alguém, era um lugar”, que “Deus é um livro”; que “peixinhos nascem de geração espontânea”; que “era uma casa com memória velha”; que “o dinheiro odeia a gente”, que os pássaros mortos “voavam, mas não tinham o céu por garantido”,bocas tão pequenas que nem palavras cabiam”… e por ai vai.

 

Para um colecionador de palavras português oferecer-nos algumas delas é como propor uma “tradução”. Porque a mota aqui seu masculino e tem duas rodas, encandeado é momentaneamente ofuscado, seitinha é bando de moleques, panico é medroso, aluir é gotejar; atilho é mero cordão de amarrar; sachola é um tipo de enxada; berma é acostamento; “sardanita” é lagartixa, “bulício” é burburinho; “pajela” é santinho impresso. Fui buscar todas essas no dicionário português de Portugal.

 

Agora, quando ele confessa que “há umas duas semanas fui comer uma francesinha ao guarda-sol…” não é bem o que pensaram. Boa leitura.


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