
-“Cadê o mata-borrão?”
-“Cadê o quê?”
-“O mata-borrão”
-“O que é isso?”
-“Ora, para enxugar a tinta.”
-”Mas a impressora está com problema?”
-“Que impressora?”
-“Ora, a impressora que escreve.”
-“Impressora não escreve. Quem escreve sou eu.”
-“Certo. Impressora não escreve, impressora imprime. E esse mata-torrão mata o quê?”
-“Não é mata-torrão, é mata-borrão.”
-“Sim, e ele mata o que?”
-“Não mata nada.”
-“Então, pra que usar na impressora?”
-“Quem disse que é pra usar na impressora? Usar na impressora coisa nenhuma.”
-“Ué, é pra por aonde?”
-“Em cima da mesa.”
-“Ah, então, acho que entendi. É um tipo de mata barata, que nem o Radox. Põe ele na mesa, a baratinha entra dentro dele e… pimba! A barata morre. Quer dizer, barata não, que não é um mata barata. Que bicho é esse “borrão”, que nunca vi? É um tipo de mosquito?”
-“Não é mosquito, nem inseto, nem bicho. Pô, borrão é um borrão!”
-“Como assim borrão?”
-“Borrão é que você deixa na sua cueca quando não limpa direito a sua…, borrão é uma mancha, uma nódoa!”
-“Não fica bravo, pó. Já entendi: é um tira-manchas, claro!”
-“Não, não é tira manchas coisa nenhuma!”
-“Não precisa se irritar, só to querendo saber. Ta ficando vermelho, meu… só to querendo entender. Calma. E quando, então, você usa o tal mata-borrão (acertei agora: ma-ta-bo-rrão).”
-“Só quando escrevo.”
-“Só quando escreve?”.
-“Sim, só quando escrevo”.
-“Quando escreve no word ou no out-look?
-“Porra, eu não escrevo no computador!…”.
-“Certo, certo: você digita no teclado, eu quis dizer.”
-“Não! Não digito porra nenhuma em porra nenhum de teclado!”.
-“Ta ficando nervoso?!”
-“Não. Não estou ficando nervoso. Eu já fiquei nervoso. Agora já estou puto.”
-“Então, se acalme. Be cool. Relax…”
-“…”.
-“E agora, me conta… calma… escreve aonde?”
-“No papel.”
-“No papel?”
-“Sim. No papel”.
-“Sem sacanagem: a impressora também escreve, digo, imprime no papel, nem por isso…”
-“Você me acha com cara de que? Pichador. Acha que eu ia sair por ai escrevendo aonde? Em muro? Em parede? Em fachada de Prédio?”.
-“Ta entendi, você escreve no papel e…”
-“Antes que v. pergunte: eu escrevo no papel à mão”.
-“Certo. Mão. Não usa nem lápis nem bic. Caramba!”
-“Ai meu cacete! Aa mão não é com a mão”
-“Gozado: se não é com a mão porque diz a mão”?
-“Ta legal. Eu uso só quando escrevo à mão à caneta”.
-“Com a caneta?”
-“É. Quando escrevo com a caneta”.
-“Gozado. Já escrevi com a bic e nunca me borrei (!). Você borra quando escreve com a bic? Ta mal a tua bic, hem?”
-“Não. A bic não está mal. A bic não borra. E eu não uso porra de bic nenhuma pra escrever!”.
-“Ta ficando nervoso outra vez. Vou pegar um cafezinho. Quer uma água?”
-“Não obrigado.”
-“Como V. estava explicando: Você não escreve de bic.”
-“De bic, não. Com a bic.”.
-“Epa! Você escreve ou não escreve com a bic?”
-“Não. Eu não escrevo com a bic, nem de bic…”
-“Matei: Você escreve à mão com lápis. Mas, pêra aí, lápis não borra!”
-“Cacete! Eu escrevo com caneta de pena!”
-“De quem?”
-“De quem o que?”
-“V. que disse que escreve com caneta de pena. Pena de quem? Qual é?”
-“Pena da sua mãe, que pariu um filho como você!”
-“Não apela. Não põe a mãe no meio. Você disse que escrevia com pena e eu só perguntei”.
-“Sabe a galinha?…”
-“Falei pra não por a mãe no meio!”
-“Agora quem se exaltou foi você.”
-“Lógico, vai falar da minha mãe assim…”
-“Você não entendeu. Não é nada disso. Não tem nada a ver com sua mãe.”
-“Ta. Então fala.”
-“Sabe, a galinha, a que faz co-co-ro-có?
-“Sei, mas porque V. fica com pena da galinha quando escreve. Só se fosse escrever sobre a avícola, que mata as pobrezinhas… pêra aí… mata-borrão tem alguma coisa a ver com matar galinha?”
-“Ai, meu Deus. Sabe a galinha que faz cororocó? Então, às vezes ela tem pena do galo quando corneia ele, tem pena da filha que é uma galinhazinha, mas tem pena mesmo é da nora, porque o filho é um pintinho pequinininho assim, ó…”
-“Agora V. está me gozando.”
-“Tá certo. Voltando a vaca fria…”
-“Pêra aí! O que tem a vaca na historia da galinha?”
-“Deus! Me ajuda. A vaca não tem nada. Voltando: sabe a galinha? Então, a galinha tem o corpo coberto por pena. Entendeu? Pena pra voar!”
-“Mas galinha não voa!”
-“Eu vou ter um troço já-já. Esquece que é pra voar. Pena. Aquela coisa que as aves têm cobrindo o corpo. Não interessa se voa ou não voa. Pena é pena.
-“Agora, estou entendendo a pena da galinha.”
-“Então! Antigamente as pessoas usavam pena de ganso para escrever”.
-“Agora, está me zoando: é ganso ou é galinha. Uma hora é galinha, na outra é ganso, qual é?”
-“Ai, meu Senhor! Eu só usei a galinha pra te explicar”
-“Ainda bem que era para explicar. Porque se fosse complicar então… Porque não disse desde o começo: sabe o ganso? O ganso de tem pena cobrindo o corpo e antigamente pegavam a pena do ganso para escrever.”
-“Então é isso”
-“Isso era antigamente. E agora?”
-“Eu gosto de escrever como antigamente…”
-“E aonde V. arruma o ganso para tirar a pena dele, do coitado do ganso?”
-“Eu não arrumo ganso porra nenhuma!”
-“Então, quem arruma pra você?”
-“Ninguém. Filho da p. nenhum arruma p. nenhuma, pra este idiota aqui escrever”
-“Chiiii… ficou nervoso de novo. Calma…”
-“Calma o car…, você não entende po… nenhuma, não entende nada”
-“Eu que não entendo. Ta bem. Ou Você que não explica direito”
-“É o seguinte – ta, já me acalmei – é o seguinte: eu uso para escrever uma caneta que é que nem uma pena de ganso. Entendeu?”
-“Com aquela pluma toda… por quê?”
-“Vou explicar, acho que não estou explicando direito. É o seguinte: antigamente, pegavam a pena do ganso, cortavam aquela pena que ficava presa na pele do bicho, deixando bem fininha a ponta, aí mergulhavam a ponta da pena do ganso numa tinta e escreviam com a ponta da pena do ganso no papel. Fui claro?”
-“Sim. Agora entendi. E como V. faz para escrever com a pena do ganso se não tem nem o ganso nem a pena do ganso?”
-“Cacete! Eu uso…”
-“Um cacete”!?
-“Vai-te a m… Eu uso uma caneta tinteiro. Entendeu?”
-“O que?!”
-“Uma caneta que não precisa molhar na tinta, ela já tem tinta…”
-“Ué, uma bic.”
-“N – ã – o ”!!!
-“Ah, claro, porque não pensei antes: uma hidrográfica!”
-“Meu pai do céu! Não é uma bic, nem uma hidrográfica. É uma caneta tinteiro, a gente põe a tinta dentro…
-“Não”!!!
-“É, tem umas que a gente gira o terminal, outras que aciona bomba, outras que…”
-“Hã”???!!!
-“Deixa, o importante que a tinta está lá dentro, e que não é nem bic nem hidrográfica.”
-“Ta, deixa pra lá. Já entendi. É uma caneta que sempre que Você escreve no papel ela borra… borra tudo?
-“Não. Não borra tudo. Não borra sempre. Não borra porra nenhuma!”
-”Se não borra, pra que esse tal de mata-borrão”?
“…”
-“Ei, o que foi? Você está mal? Ei, fala comigo… Você vai cair assim… ai, meu Deus… Ei, fala comigo… gente, socorro!