
ão, não se trata de uma obra de zoologia. Mas de um romance.
A Elegância do Ouriço é um romance cuja protagonista é a zeladora de um prédio de luxo, nascida no interior do País, com escolaridade primária, viúva, “cinquentona” e mal humorada.
Além disso, é uma crítica mordaz dos hábitos e atitudes da alta classe socioeconômica que reside no prédio, com a qual tem de conviver. Porém, sua sagacidade contundente, expressada por suas reflexões, revela uma pessoa que tem profundo conhecimento do pensamento dos grandes filósofos – clássicos e contemporâneos – além de uma cultura artística invejável.
Confronta-nos, assim, com o arquétipo que construímos dos trabalhadores de baixa formação, ou da “mão de obra desqualificada”, como queiram.
Outro arquétipo confrontado é do jovem que não pensa, do adolescente tão cheio de modismos e tão vazio de conteúdo. Eis que somos surpreendidos por uma pré-adolescente, com pensamentos profundos, tão filosóficos quanto ao dos autores relidos pela zeladora.
Entre elas transitam os homens e mulheres de uma elite, que acentuando a diferença de níveis sociais, reafirmam os seus status superiores contradizendo seu socialismo de fachada.
Como o País é a França e a cidade é Paris, a zeladora é “concièrge”. E a personagem, revelando (ou valorizando) a própria cultura filosófica da autora, em cada página desenvolve reflexões filosóficas respeitáveis, citando os seus autores preferidos, como Edmund Husserl – pouco conhecido, mas foi o criador da escola da fenomenologia tendo influenciado (foi grande influenciador sem blogs nem canais no youtube) pensadores como Merleau-Ponty, Heidegger, e o próprio Sartre, a quem a autora revela certa admiração, pelos seus pensamentos e narrativas (para mim) muito próximos do existencialismo que provavelmente predominaram durante sua formação acadêmica.
Este livro, cuja estória contada é um romance, foi posto na “prateleira” dos “romances filosóficos”. Porém, não deixe que a palavra “filosófico” afaste seu interesse porque é uma leitura agradável, humorada, culta, inteligente.
Mais não digo para não lhe tirar o sabor da surpresa.