
Gosto de História. O passado me fascina muito mais do que o futuro. E por falar em passado, esse livro fez-me lembrar do meu exame oral para Faculdade de Economia. O professor titular era o Prof., Dr., Conde Sebastião Pagano, que eu conhecia desde a adolescência (morávamos próximos). Mera coincidência, pois foi surpresa para ambos nos encontrarmos. Era um sábado, fim de tarde. A exaustão dos examinadores era evidente. A sala era modesta, sem ar condicionado (raridade na época) e sem ventiladores (já inventados) e o verão mostrava a que veio. Todos suavam e a careca do Conde brilhava. Porém, quem mais suava era o vestibulando, um nissei, chamado para sentar-se diante dos três professores. Eles se postavam nas mesas colocadas num praticável acima da cadeira em que o vestibulando se sentava para responder as questões.
Atendendo ao pedido de um Titular, o nissei tirou de um saquinho de pano à sua frente, uma peça e disse o número que ela continha.
O Conde Sebastião Pagano – de uma cultura vastíssima e de uma inteligência arguta – procura numa lista o tema correspondente ao número e declara: “Assunto: Descobrimento do Brasil”.
O nissei se ajeita na cadeira, pronto para a execução. Com muita ironia e uma pitada de humor, o Conde pergunta:
– “Quem descobriu o Brasil?”.
– “Pedro Álvares Cabral”!, responde prontamente o nissei.
– “Como ele chegou aqui?”.
–“Ele veio conduzindo as caravelas”.
-“Muito bem. Com quantas caravelas ele veio?”
-“Com três!”, respondeu prontamente o Nissei.
Fazendo cara de curiosidade, pergunta o Conde com toda a naturalidade:
-“Por acaso Você saberia o nome dessas três caravelas?”
-“Sim senhor: Santa Maria, Pinta e Niña!”
Clima de suspense e surpresa. Nenhum dos professores riu. Somente se entreolharam. Aí, como para ajudar o vestibulando, o conde pergunta:
–Por acaso, meu jovem, essas três Caravelas não pertenciam a Colombo?”
O Nissei faz uma careta percebendo a besteira que tinha dito. Não tinha mais jeito. Acho que se sentiu bombado e, perdido por perdido, ele respondeu prontamente:
– “Bem senhor, realmente, essas três caravelas foram as usadas por Colombo dois anos antes para descobrir a América… mas não li em nenhuma parte que elas não poderiam ter sido emprestadas para o Cabral…”
Espanto e admiração nas expressões dos três examinadores. Foi aí que o Titular, Conde Sebastião Pagano, com um sorriso contido e um olhar sério se dirigiu ao nissei dizendo:
-“Meu jovem. O senhor pode não saber nada de História. Mas revelou ser inteligente e muito talentoso. Pensando bem, eu acho que para conduzir o futuro do Brasil, o País precisará mais de homens inteligentes e de ação do que de bons conhecedores Historia. Que nota Você precisa?”
Naquela época o exame vestibular era feito em duas etapas. Primeiro era a fase escrita. Se Você conseguisse média em todas, se submetia ao exame oral. Isso em cada matéria.
O Nissei, acabrunhado disse um número. Ato contínuo, o Professor Titular se dirigiu ao outros dois colegas perguntando afirmando
–“Você concordam com o que eu disse”.
Ambos (embora surpreendidos pela atitude pouco comum de um Mestre) acenaram positivamente, em concordância.
-“Então, o senhor está aprovado!”
Como esta não deixa de ser uma história da Historia, atrevo-me a contá-la, como testemunha ocular. Mas, quanta a Viagem do Descobrimento, ela tem ensejado centenas de eventos, textos, interpretações, descobertas e que tais. Até hoje se discute: intencionalidade ou acidente de percurso (literalmente)? E como em muitos processos judiciais atuais, se não há provas, há muitos indícios.
Neste pequeno livro de Eduardo Bueno, se não há grandes descobertas (ups!) sobre o tema, é uma narrativa interessante, pois não aborda apenas a seqüência dos fatos ligados a viagem, embora apresente um excelente “reportagem” da partida. O mais interessante, para mim, é o registro da participação de personagens (uns conhecidos outros nem tanto) e a explicação dos eventos (não tão conhecidos assim) ocorridos antes e depois do 22 de abril de 1500.
Analisando do ponto de vista humano, o movimento dos descobrimentos não revela determinação, destemor, heroísmo (como louvado nos Lusíadas). Ele revela insensatez, inconseqüência ou mesmo loucura. Já imaginou ir para um lugar – que V. não sabe qual, nem onde fica. E irá por um caminho que é desconhecido. Vai sem saber quando chegará… e nem se chegará. Isso, por um mar imenso e dentro dum barquinho (sim caravelas tinham quando muito 30 metros de comprimento), movido a vento e, ainda por cima, havia duvida se a terra era redonda. E se não fosse; abismo! Aqueles lusitanos eram mesmo abiscoitados!
Neste pequeno e despretensioso livro, sem aquela linguagem chata de academia, Você vai conhecer um pouco do que era de Portugal do XV/XVI e dos personagens que transformaram um país insignificante – prensado entre o Atlântico e os Reinos espanhóis – num império ultramarino. Do qual fizemos parte, pois não?
Algumas intrigas palacianas, o grotesco dos primeiros encontros, a fixação pela ambição, a desgraça de muitos e a glória de poucos. Saber um pouco do nosso passado é bom, e esse livro é bue. Leia-o. É muito fixe.