
(Para o Clube de Leitura do Sirio)
Três filmes marcaram minha juventude, pelo impacto que me causaram e que me fizeram ficar imobilizado quando as luzes do cinema se acenderam após o “The end”: A Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, de 1962, Doutor Fantástico, do mesmo diretor, de 1964, e o Fahrenheit 451 de Truffaut de 1966. Pós-adolescente eu vivia num mundo dividido, numa guerra fria que quase esquentara numa guerra nuclear em outubro de 1962. Lembro-me de ficar colado no radinho Spika, junto com a turminha do Colégio, à noite, ouvindo as noticias sobre o deslocar da frota russa e a ameaça de Kennedy de mandar a 7ª frota abrir fogo caso ela ultrapassasse determinado paralelo. Se eu tenho isso gravado até hoje, imaginem a nossa mente quando foi exibido o Fahrenheit 451.
Quando o livro foi proposto no nosso Clube vieram-me as imagens dos lança chamas, dos incêndios provocados pelos bombeiros, do paradoxo bombeiro ateando fogo, da eliminação da leitura, da extinção da História, da angústia que senti nos meus 16 ou 17 anos de ter de viver naquele futuro. E agora eu o estou vivendo.
Na época eu desconhecia o Livro e o autor. Lendo agora, parece que Ray Bradbury escreveu a “História do futuro”.
Nos anos 50 não havia TV em cores, nem telões, nem comunicação interativa, nem fones de ouvido de uso popular, nem amplificadores para plateias de milhares (só as caixas da Marshal), nem micro-microfones espiões sem fio, nem o blue-tooth, nem o MP3, nem os streamings de musica, nem os reality shows, nem os robôs autônomos, nem os avatares, nem o lazer com jogos hiper-realistas, nem baladas, nem as raves, nem as parafernálias de ruídos cores-luzes-corpos-danças e dezenas de efeitos cênicos em shows “musicais”; e nem plateias contorcendo-se em transe, possuídas pelo prazer da reação dos reflexos condicionados. Não havia o Extasi, nem Pandora, Mefedrona, nem LSD, ou Spice, etc. Também não havia os “analistas”, da psico-escola do “seja feliz a qualquer custo”. Não havia nem Instagrams, nem whatsApps, nem FacesBoks, nem Internet, nem smart phones.Mas havia absoluta falta de comunicação interpessoal.
Tudo isso e muito mais nós temos nos dias de hoje.
E tudo isso esta lá, no livro escrito na década de 50 do século passado, livro que antecipou um futuro muito parecido com os dias de hoje.
Ainda não começamos a queimar livros. Mas as editoras estão fechando, as livrarias falindo, as pessoas lendo cada vez menos, os alunos se formando analfabetos, os memes substituindo orações gramaticais, e se abandonou a caligrafia, a ortografia. E a escrita está se resumindo.
Não foram necessárias as guerras atômicas mencionadas no livro para aniquilar civilizações, pois parece que elas vão se auto-aniquilando.
Se pegarmos o “enredo” da estória ele bem é simples: um homem revolta-se contra a sua sociedade, família, emprego, toma consciência da sua situação e da falsa felicidade imposta às pessoas e se revolta contra tudo. Comete um ato terrorista, um assassinato, e torna-se um fugitivo. Na fuga encontra um grupo de fugitivos vivendo à margem da sociedade, e que tentam preservar valores culturais e morais destruídos pela sociedade em que viviam anteriormente, e se integra a esse grupo. Nesse momento, primeira bomba (atômica) da guerra que se prenunciava aniquila a sua cidade e com ela presume-se toda a “civilização” que eles abominavam. Apesar da destruição era também possibilidade de um recomeço com os ideais que eles mantinham.
Um enredo simples, mas um grande livro que leva a pensar, a refletir.
Aliás, é o que os livros fazem de melhor.
Leia-o.