
(Para o Clube de Leitura do Sirio)
Um amigo recomendou, não sem me prevenir. Acatei a recomendação e li “Lincoln no limbo”. Nem o mais veemente aviso de prevenção teria sido capaz de amenizar a surpresa ao ler cada capítulo.
Eu tinha de Lincoln a imagem que, creio, todos têm. Mas, há algum tempo, comecei a assistir um filme com título para mim curioso: “Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros”. O título não era nenhuma analogia: titulo expressava literalmente o enredo. E o Lincoln, coitado, foi usado para um fim lamentável, pegar a onda do vampirismo cinematográfico. Com todo o respeito por quem gostou, não sei como o filme termina. Não consegui continuar vendo.
Mas, quanto a este Lincoln, que está no limbo e não entre os descendentes do Conde Drácula, a coisa mudou. E muito.
Pela data, o livro foi feito depois do filme. Mas não tem nada a ver, apesar do sobrenatural.
O autor, que eu desconhecia, conseguiu me tirar de um mundo real, embora histórico, do Lincoln que eu conhecia, para um mundo sobrenatural. Do real, a situação política incontrolável da América, da nação dividida, do líder determinado e inflexível, do drama pessoal da perda de um filho na puberdade.
A partir daí, para mim, tudo inédito. Nunca li nada parecido. Surpresa, espanto, sobressalto, assombro.
Não foi fácil entrar e conseguir seguir a narrativa. Narrativa que oscila entre dois mundos. Um real outro fantástico. E sem aviso prévio é contada por dezenas de personagens, sem ordem cronológica (mas haveria cronologia no além?). Essa técnica narrativa, inédita para mim, trouxe-me a imagem da junção de milhares de pequenos recortes de frases retirados de páginas de jornais e revistas, e coladas uma após outra em folhas de papel. Embora díspares, desconexas, acabam por formar sentido, reproduzir diálogos, descrever locais, comentar circunstâncias, revelar sentimentos, analisar caracteres e personalidades e, por fim, contar uma estória.
Acreditem ou não (e aqui o verbo “acreditar” tem todos os sentidos possíveis), no além, no assombro, no susto, no terror, mas também no extraordinário, no maravilhoso, na esperança. Acreditem ou não na vida eterna (amem), e se for, seria a nossa passagem assim?
Contar uma estória com falas desconexas que ecoam por todo o espaço real ou imaginário é realmente uma demonstração de talento e criatividade do autor.
Conseguiu fazer uma obra com uma colcha de retalhos. Ou melhor, com uma mortalha de retalhos.
Apesar de tão diferente e impactante, recomendo a sua leitura. À noite e no escuro.