
NADA MENOS QUE TUDO
Rodrigo Janot
Janot foi o Procurador Geral da República nos recentes mais conturbados anos de nossa história política.
Indicado na lista tríplice da corporação, foi nomeado em 2013 pela Presidente (ou presidenta?) Dilma Roussef para mandato de dois anos, tendo sido reconduzido ao posto em 2015.
Não vou dizer que minha mania de leitura me leva a ler até bula de remédio, porque seria uma grande descortesia para com o amigo que me deu o livro.
Este livro despertou-me a curiosidade – não só pelos embates políticos e jurídicos da época – que todos puderam acompanhar pelos jornais, rádios, tevês e dezenas de outras mídias – mas principalmente depois de da declaração do autor à imprensa de que chegou a se armar para assassinar um “simpático” Ministro do STF.
Como segundo Sêneca “a vingança é o reconhecimento da ofensa”, fiquei curioso por saber qual seria ela (a verdadeira ofensa feita pelo Ministro) e a sua gravidade, para gerar o extremo da vingança, qual seja, o homicídio.
Passado também esse quid-pro-quo (esse, porque em sua gestão houve vários outros) achei que o autor teria muito a revelar e o faria no livro “Nada menos que tudo”, cujo título (bom por sinal) era o que prometia.
Parece que, como registrou um cronista, se a revelação da intenção do homicídio era promover o lançamento do livro, o tiro saiu pela culatra.
E ler seu livro para mim – na expectativa de conhecer revelações dos bastidores do mundo jurídico e político, nos quais ele transitou por tantos anos e em tal profundidade – foi uma grande frustração.
Para quem leu os jornais e acompanhou pelos noticiários diários os acontecimentos da época, o livro não trás nada de novo em termos significativos. O que senhor Janot descreve acrescenta pouco ou quase nada do que já era público. Talvez detalhes de encontros, de frases e de comportamentos enriqueçam (muito pouco) a narrativa. Eu, que acompanhava os acontecimentos com o interesse de quem acompanhava os eletrizantes capítulos de uma novela de excelente script, o livro não acrescentou nada além de frustração. Nada de novo naquele horizonte nublado.
O livro não trás nem fofocas novelescas (que poderiam ser divertidas e curiosas) nem contribuições para a história recente do país (contada por que fez parte dela). Não sei as causas, mas suponho quais poderiam ser.
A narrativa tem boa forma, o texto corre leve, contínuo, o que certamente é um mérito. Mas do(s) “co-autor (es)”, Jailton de Carvalho e Guilherme Evelin, jornalistas e, como tal, lidam bem com a arte de escrever.
Quanto ao autor oficial, pareceu-me mais comprometido em justificar suas atitudes institucionais, em valorizar a sua postura profissional a enobrecer a Instituição e a Carreira. Simultaneamente, pareceu-me também uma tentativa de demonstrar o seu protagonismo nos mais importantes acontecimentos recentes desta República. Mas esse protagonismo era implícito ao seu cargo.
De qualquer forma, pelo que é contado no livro (e, como autobiografia, do biografado relevam-se as virtudes e nunca os vícios), ele Janot procurou ser reto em todas as suas atitudes e decisões NUNCA cedendo às pressões, NUNCA se deixando influências, NUNCA sendo personalista, NUNCA cometendo erros, NUNCA sabendo nada alem. Creia se quiser.
Como os processos da Lava Jato contra os “foro privilegiados” fossem obrigatoriamente para Brasília – a seara própria do Procurador Geral da República, é curioso como há poucas linhas dedicadas àqueles que realmente levantaram e sustentaram a Lava Jato, ou seja, os Procuradores Federais do Paraná e o Juiz Federal local. Aliás, os poucos comentários foram mais de deméritos.
Enfim, o auto-biografado se mostra mais como o verdadeiro Herói dessa aventura do que aquele que detém conhecimento dos bastidores do poder e se propõe a contá-los no livro. Coisas escabrosas que certamente ocorreram e ocorrem na Capital da Esperança (!) não são reveladas (além daquilo que os jornais publicavam). Por que?
Neste “Nada menos que tudo”, o que foi contado foi muito pouco, menos que nada.