Literatura

O corpo, de Stephen King

 

(Para o Clube de Leitura do Sírio)

Mais um conto (seria um conto?) em que o autor dá uma demonstração de como conduzir uma narrativa para manter a atenção do leitor e fazê-lo entrar na estória.
A estória em si é pequena – o próprio título já revela. Mas como ela vai sendo contada é que mostra a maestria.

Personagens são descritos e definidos de tal maneira que se tornam reais. E em reais são transformados os locais e eventos, tal a quantidade de detalhes que reproduzem uma localidade e uma época. E o leitor, que pela sua idade foi contemporâneo da época dos fatos, encontra-se com coisas do seu próprio passado – os modismos, os astros, os programas. Essa técnica não é novidade – outras obras revelam-na.

Entretanto, surpreende pelo ineditismo do recurso utilizado – como umameta-linguagem: parte do conto – e da narrativa – é a “reprodução” de um “artigo” publicado anteriormente pelo próprio personagem central num jornal da cidade.
É tão real, que dá vontade de ir procurar o jornal e consultar os arquivos para encontrar o tal artigo.

Os conflitos na família são expressos de tal maneira pelos poucos, mas intensos diálogos – que poderiam compor o texto de peça teatral (quase dramaturgia) – permitem compreender as personalidades dos personagens, e o quadro psicológico onde permeiam traumas, recalques, ódios, traumas e se espalha pelo conto uma nuvem de maldade latente. Reminiscências são intercaladas com a narração dos “fatos”, não só explicando causas, mas interrompendo em momentos precisos para gerar suspense. Tensão, relaxamento, tensão, relaxamento se alternam.

Nas pretensões do “personagem quando escritor jovem” parece que o alter-ego do autor se manifesta e aí, o narrador, o personagem e autor se fundem e nos confundem (seria autobiográfica ou uma aprimorada técnica narrativa?). Seu texto fala intimamente com o leitor, mais parecendo uma carta escrita por um amigo, e cujo destinatário é – precisamente – Você, leitor.

Entremeando a narrativa com diálogos, digressões, descrições, flash backs, o vai-e-volta, o suspense e a tensão vão se construindo na revelação dos sentimentos de violência, autodestruição, impulsos suicidas e homicidas. O suspense é mais decorrente pelo que não acontece, do que pelo que acontece. Fatos narrados são desconexos ao enredo, são pontas soltas que se espera venham a ser atadas. São estórias dentro da estória. A sua expectativa em atá-las é que é o suspense.

Coisas triviais – um concurso de devoradores de torta com um grandioso final gastro-refluxório, a travessia de uma ponte ferroviária, um ataque de sanguessugas, transformam-se em ricas narrativas. E dão ao conto (conto?) um tom ora hilário, ora trágico, ou ainda triste e pessimista. Mas, sobretudo, com técnica precisa, alternando tensão e descontração, mantém o leitor preso não a uma ficção, mas a uma “realidade” da qual ele parece fazer parte.


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