LITERATURA

O Profeta

Comentar uma obra considerada um clássico internacional, editada em dezenas de idiomas, elogiada por milhares nos vários países, prestes a completar o centenário da primeira edição e ainda com vendas que se mantêm altas por décadas, sendo considerado por muitos de leitura obrigatória, não é nada fácil.

Dizer ter gostado e elogiar é fazer coro com a enorme maioria.

Na década de vinte do século passado (1923), um árabe sírio-libanês (na época não havia ainda o Estado – Pais Líbano), radicado nos Estados Unidos, escrevendo na língua adotada – o inglês – uma obra de características de relativa identificação com a cultura oriente médio – o árabe- que nada tinha a ver com a cultura euro-americana, deve ter sido – no mínimo- algo inédito.

A temática orientalista nas artes ocidentais já havia saído de moda, embora um certo exotismo ainda fosse explorado, com origem nas culturas do mundo colonizado (África, Ásia e mesmo Américas ainda amargavam a exploração colonial).

Aí, aparece esse Profeta, de nome Mustafá, personagem quase místico, um sábio sem academia, um profeta sem religião, que num momento atemporal – está deixando a terra que o acolhera (Cidade fictícia de Orfalese) e, estimulado por uma sacerdotisa sem credo definido, como numa ágora grega e como despedida, responde a perguntas do povo, que o admirava e o tinha como mestre.

E sobre o que perguntavam? Cada um sobre um tema presente na vida de todos os seres humanos: Amor, Casamento, Filhos, Comer e Beber, Trabalho, Alegria e Tristeza, Casa, Vestir, Comprar e Vender, Crime e Castigo (não o do Dostoievsky), Leis, Razão e Paixão, Dor, Ensinar, Amizade, Falar, Tempo, Bem e Mal, Prece, Prazer, Beleza, Religião, Morte. Só.

E em resposta a cada pergunta, dizia várias frases, conceituando o tema e ensinando como interpretar, como entender, como pensar e se comportar, como agir, e sempre numa linguagem poética, de total simbolismo, lembrando as parábolas bíblicas, as frases de personagens de monges kung-fu de series de TV em preto e branco.

O autor antecipou esse estilo literário de personagens “filosóficas” que diziam frases profundas, aparentemente genéricas e que precisavam ser interpretadas adequadamente para serem aplicadas aos fatos apresentados.

Do ponto de vista lingüístico, O Profeta fez-me lembrar das aulas da Professora Bárbara Vasconcelos, de Semântica da língua portuguesa, no capítulo das Figuras de Linguagem.

O Profeta está repleto de alegorias, metáforas, analogias, hipérboles, eufemismos, e outras tantas figuras.

Fiz um exercício e peguei algumas frases e as coloqueis em outro(s) capítulo(s). (Reconheço que foi maldade). No geral, continuavam “adequadas”, talvez conseqüência da generalidade, da abstração, das ênfases próprias da linguagem figurada.

Esse estilo de texto com frases pontuais e a sua repetição levou-me a associá-lo às centenas de frases que invadem a todo o momento nosso whats-app, com conselhos, alertas de perigo, interpretações, explicações, incentivo, reconforto, auto-ajuda, auto-análise… parecendo ter sua origem num ente de sabedoria universal.  Só que agora a maioria vem acompanhada de interessantes ilustrações ou figurinhas.

Aos amantes da obra, peço perdão pelo meu azedume.  Muitas o leram várias vezes e outros a têm até como livro de cabeceira. Tenho certeza de que a sua leitura lhes faz bem para a alma. E tenho certeza também de que sua leitura jamais possa ter levado alguém a um pensamento ou atitude inadequados, sequer inconvenientes. Muito pelo contrario.

Simplesmente, não o li como algo sacro, catequético, ou doutrinário. Simplesmente como um livro que conta uma história.

Acho que fui vítima de dissonância cognitiva.


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