
(Para o Clube de Leitura do Sirio)
Mais uma boa escolha do grupo. Um romance com todos os bons ingredientes que nos levam a ler sem querer parar, apesar da descrição detalhada de situações e acontecimentos banais, corriqueiros, do dia a dia de crianças comuns de uma família comum.
Mas essa narrativa de simples fatos do cotidiano vai formando os fragmentos que compõem o quadro do que teria sido a vida numa minúscula cidade do interior do Estado sulista do Alabama na década de 30.
Desde o fim da Guerra Civil, Leis e Emenda à Constituição foram promulgadas para garantir a igualdade de direitos. Entretanto, em nome do direito dos Estados decidirem suas políticas, e apesar dessas Leis Federais, Estados do Sul – e principalmente o Alabama – mantiveram legislações antirracistas, protegendo e institucionalizando o racismo e a segregação racial.
Quando Harper Lee escreveu este romance – presumo nos fins dos anos 50 – estava sob o impacto da explosão do movimento pelos direitos civis para os negros, deflagrado com o famoso caso da mulher negra que se recusou a dar seu lugar para que um branco se sentasse. E sob as suas próprias lembranças, já que nasceu em 1926, no Alabama, portanto ela teria a mesma idade da personagem central (que teria nascido em 1926). A personagem narra a estória. Mas a personagem que narra é a própria autora.
Se somente em fins dos anos 50 e foi proibida a discriminação nas escolas, e a igualdade de direitos civis e igualdade de direito do voto só ocorreram na segunda metade dos anos 60, imagine-se o que seria o Alabama, nos anos 30, quando os fatos narrados ocorrem.
Com a descrição – até singela –do cotidiano das pessoas e famílias da hipotética cidadezinha de Maycomb, já pobre e ainda na época da grande depressão, vai se revelando uma sociedade fechada, ultraconservadora, preconceituosa, segregacionista, que segregava não somente os pretos, mas também os mais pobres, e aqueles que não se comportavam dentro desses valores, como o Atticus, viúvo, pai das crianças, que resolve – como advogado dativo – defender um negro injustamente acusado. Mas defender pra valer, colocando os seus princípios acima e contra os valores daquela sociedade. É onde se revela o contraditório para toda aquele racismo. Mas se o racismo é violento, o pensamento de Atticus não. Ele é pacifista.
Eu esperava tensão já nas primeiras páginas, em razão do tema, mas a narrativa só adquire tensão após umas duzentas páginas. Quando do julgamento e, no final, o corrido no Dia das Bruxas.
Mas fui conquistado pela narrativa leve – mesmo que sobre assuntos graves. As tiradas das crianças, principalmente da Scout, as descrições dos tipos, o ridículo das senhoras, a crítica ao racismo nazista (… mas os judeus são brancos…), o discurso do pensamento reacionário, as máximas que se perpetuavam as contradições expostas, a descrição física da Sra Dubose… como “a boca parecia ter vida própria, abria e fechava como um marisco na maré baixa”. De vez em quando, a boca fazia puf como um líquido viscoso fervendo. (hilário).
As convicções políticas e/ou filosóficas (seriam as da autora) são colocadas com naturalidade no contexto dos acontecimentos, mais expressas nos diálogos do que em reflexões subjetivas, o que contribui para a leveza do texto.
Como um bom chato, estranhei que araucária dava em moita. E às vezes soava estranha a Scout, uma menininha, às vezes pensar e/ou falar como uma adulta. Mas, afinal, a menina narradora… é a autora escrevendo.