
Os meninos que enganavam nazistas.
De Joseph Joffo
Para o Clube de Leitura do Sírio
Não sei por que, mas sou atraído pelos eventos da segunda guerra mundial. Li dezenas de livros e vi muitos filmes – sobretudo documentários por serem mais realistas. Acho que procurava entender aqueles acontecimentos, coisa que não consegui até hoje. Conheci pessoalmente um homem, de quem me tornei amigo, e que foi soldado da Wehrmacht. Ou vi muitas historias dele, desde 1938 – na ocupação da Áustria até depois da rendição da Alemanha em 1945, quando conseguiu escapar do exército vermelho e se entregar para os americanos. Ouvir de viva voz é diferente.
Mas não parece realidade essa historia contada por quem foi uma criança judia numa França ocupada pelos nazistas. Fui até conferir se realmente não seria apenas um romance, aliás, um bom romance. Mas é uma historia real.
As aventuras de Josph Joffo e seu irmão Maurice, expõem de forma detalhada o que era a vida na França ocupada pelos nazista e, particularmente, a de uma família judia, mas todas elas objeto da perseguição insana.
Hoje em dia pais não permitem seus filhos irem à escola sozinhos, nem pegar um ônibus e nem ir além da esquina. O que dizer de um pai, num País em guerra, de noite, pôr seus filhos de 10 e 12 anos, fora de casa, com mochilinha nas costas e algum dinheiro no bolso, para irem para uma cidade a quilômetros de distância, sem nunca terem saído do seu bairro, e nem saberem onde era tal cidade? Só o desespero máximo e a certeza de que, se fossem pegos, seriam assassinados. E pelo crime de simplesmente terem nascido. Nascidos judeus
Não foi uma fuga, mas fugas. De cidade a cidade. De um lugar a outro. (Curioso, localizei e tracei no mapa o roteiro das fugas).
Entretanto, diante de tanta maldade, tanta perseguição e crueldade me surpreendeu que a narrativa não estivesse plena de amargura, de ódio, de vingança. Curioso mesmo que o autor, que é o protagonista desse “romance” (de aventura, mas da vida real), é que consiga manter uma postura quase que isenta, distante, ou mesmo insensível. Por muito menos qualquer um de nós estaria mostrando todo nosso lado feral.
No meio de tanta desgraça, encontramos narrativas até com certa ternura poética, como por exemplo, dizer do seu que “irmão é alguém que devolve a bolinha”.
Sem nenhum rebuscamento histórico ou pretensão, o autor vai descrevendo as situações por que passavam os povos ocupados. Se os campos de batalha estavam longe, a maldade da guerra e o inimigo estavam sempre ao lado, ao lado da casa, do trabalho, da escola. E o pior: inimigos eram também os próprios concidadãos. Descreve os métodos pela identificação, busca, prisão e execução dos judeus, e os procedimentos para verificações da hereditariedade judaica e sinais físicos. Mostra como povos foram dominados e condicionados até a adotar o ódio gratuito contra um outro povo com que até então tinham convivido pacificamente, sem nenhuma discriminação.
Revela até a inocência da infância (quando um coleguinha pede “me vende essa estrela amarela que você trás no peito”).
Alguns deslizes, talvez pelo tempo decorrido entre a narrativa e o os fatos, seriam inevitáveis, como ser improvável a uma criança que desconhecia tudo, mas sabia de campos de concentração em 1941, em saber dos colaboracionistas ou de movimentos estratégicos dos exércitos. Ele era criança demais para conhecer isso. Embora tivessem todas as condições para conhecer “pessoalmente” as tropas de ocupação de Paris e de outras cidades, as fardas pretas das SS, e dos agentes da Gestapo.
A narrativa detalhada dá veracidade ao romance. A descrição dos locais, ruas, prédios, dos carros e ônibus, dos caminhões e dos vagões dos trens, das gares formam um retrato verídico do que foi e que pode ainda hoje ser comprovado, pelo que restou (pelo menos pelo Google Street View).
Aparecem também personagens que, se fosse outro o estilo do autor, seriam tratados como heróis. Mas nessa narrativa nem trágica nem emocional são mostrados como serem humanos comuns, como o padre que os encobre no tremou a velha senhora que parecia ser delatora.
É um longo período de vida descrito. Com suas mudanças inevitáveis, registradas como na reflexão: “não tiraram minha vida, mas roubaram minha infância”.
Mas, a necessidade de sobrevivência e uma cultura milenar motivada pela perseguição, revelam comportamentos que não devem ser avaliados pelas normais comuns morais, como a fixação em conseguir ganhar dinheiro, com insistência e quase obsessão e o aproveitamento das circunstâncias para obter alguma vantagem. Isso era tão pouco ou quase nada diante de uma burocracia enorme para… oficializar um judeu, para poder persegui-lo e eliminá-lo como a coisa mais importante para o Estado. Perdendo a guerra e perdendo tempo com isso? Ridículo! Que doença mental fez de assassinos burocratas. E de burocratas assassinos! E ambos dominadores de vários países? Ainda bem que foi por pouco tempo. A tempo de fazerem duas crianças enganarem os nazistas.