Literatura

Patópolis

Patópolis

Marcelo Coelho

Entre a sinceridade e a educação…

Ganhei um exemplar do Patópolis, de Marcelo Coelho, edição Iluminuras.

Desconhecia a obra e o autor. Como leio até bula de remédio e em pleno isolamento da pandemia, pus-me a lê-lo. No princípio intriguei-me. Como tratava de gibis, revistinhas e personagens do Disney isso representava um apelo pessoal. Na minha infância, todos os dias meu pai trazia uma porção desses gibis e revistinhas. Ele era fotógrafo gráfico e trabalhava na SAIB, a Sociedade Anônima Impressora Brasileira. Esse era o nome da gráfica que se tornaria a Editora Abril, e que lançou no Brasil as revistinhas da Disney, e inúmeros gibis, e que me influenciaram muito, tanto pelo aspecto gráfico como literário. Era e sou um fã daqueles Patos.

Com a ilustração de capa e o título “Patópolis”, achei que esse livro me faria mergulhar naquele mundo do Disney. Mergulhei, mas não foi naquele mundo de fantasia. Foi mais um mergulho nas elucubrações do autor, que remetendo àquilo que para ele apareciam nos quadrinhos das revistinhas, rebusca suas lembranças, emoções, sensações, interpretações, conclusões e incertezas, mas parece também refletir as frustrações, insatisfações, desajustes e certa revolta, tentando atribuir aos quadrinhos não aquilo que os quadrinhos mostram, mas aquilo que acha que queriam mostrar. E os associa a suas experiências.

Sinceramente surpreendi-me com a interpretação. Certo é que o autor tem facilidade de digitar, de discorrer sobre tudo, de trazer experiências pessoais para confrontá-las com os gibis, sobretudo para tergiversar pelos caminhos paralelos de suas experiências, e certamente traumas, que o levam a associá-los aos quadrinhos.  Mas pereceu-me gratuita a agressividade contra a criação de Disney, quase uma tentativa de destruir os personagens e os valores que transmitiam. Donald, os Sobrinhos – Huguinho, Luizinho, Zezinho – o Pateta, o Tio Patinhas, a Margarida, enfim, todos os personagens foram execrados. Nem a vovó Donald escapou. Patocídio? Disneycídio? Gibicídio? Não compreendi porque tanto.

O autor parte da cena em que o Pato Donald, no sentado sofá de sua sala, com cara de enfado, tem nas mãos um livro com o título: “Contos Chatos”. A partir daí a espinafração toma conta do autor, que procura desconstruir as historinhas, os próprios personagens, os redatores, até mesmo os ilustradores são criticados. Achei que, em algum momento, até meu pai que fazia os fotolitos para a impressão, seria acusado de alguma coisa.

Como ganhei o livro de uma amiga, e por respeito a quem m´o deu eu o li, do começo ao fim. Creio na inocência dela – ela certamente só o conhecendo “de orelha”, literalmente. Mas, sinceramente, não consegui entender os valores dessa nova literatura brasileira. Se “Contos Chatos” era o livro que o Pato Donald estava lendo do sofá de sua sala, eu no meu estava lendo “Contos Chatíssimos”, e me perguntei: “O que o autor teria sofrido quando criancinha estava lendo uma revistinha do Pato Donald”? Só pode ser trauma. E dos grandes.

Desculpe-me o autor, mas entre a sinceridade e a educação fiquei com a primeira.


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