LITERATURA

Piraí também foi Cultura

(O importante não é o lugar, mas o que acontece nele.

Cada avenida, cada rua, cada beco da cidade foi testemunha de acontecimentos

que fizeram a história de muita gente. Inclusive da sua. Este é um pedaço da minha.)

 

Piraí também foi Cultura

 

Aquela ruazinha da Lapa City marcou minha infância e juventude. Mais a infância que a juventude. Deve ser normal, porque quando crianças nosso hardware ainda está quase vazio e todas as experiências marcam.

Quem não se lembra das brincadeiras de crianças? As minhas eram a bola, brincar de bandido e mocinho, bolinha de gude, guerra de mamona, trepar nas árvores feito Tarzan e aproveitar aquela “floresta” na frente da minha casa. E atrás também, porque além do meu quintal ficava a divisa do terreno vazio que, dava frente para a Rua Pio XI.

Você certamente se lembra de suas brincadeiras de criança. Diferentes das minhas, certamente, mas inesquecíveis também. E das suas travessuras? A minha maior foi tocar campainha e sair correndo. E a sua?

E dos seus vizinhos quando criança?   Nos primeiros tempos de Piraí, não existia televisão em casa. E eu fui um “televizinho” (lembra disso?) na casa do Oscar, uma família húngara. Mas só as sexta feiras, para ver os “Reis do Ringue” – aquela luta livre fajuta, com heróis e vilões.

Outra vizinha que marcou era uma jovem senhora, que eu achava ser mais que bonita: muito elegante. Passava em frente de casa sempre de vestido, bolsa, luvinhas. Quando não de casquete – aquele chapeuzinho que as mulheres usavam naquela época.  Certa vez tomei o ônibus com ela: Bolsa e sapatos amarelos, vestido branco de bolinhas amarelas, luvas e um chapeuzinho branco. Pra mim era o sumo da elegância. Era o protótipo da esposa elegante, que um dia eu teria.  Acho que moda e elegância também é cultura.

Com muita freqüência passava em frente de casa um senhor sempre de terno azul marinho ou preto, camisa branca e gravata preta. Usava bigode, era magro e alto. E cabelos pretos e cheios. Sempre sério, olhando para o chão compenetrado, carregando um estojo de instrumento. .Nunca soube em que casa ele morava, mas devia ser bem perto.

Um dia fui levado ao Teatro Municipal, num domingo de manhã, assistir aos “Concertos para a Juventude”. Música erudita se ouvia em casa no rádio (Rádio Gazeta, a emissora de elite) e discos do meu pai. Mas, estar naquele teatro lindo, ver pessoalmente aquela orquestra enorme foi impressionante.  E impressionou a entrada do regente, ereto, pomposo, usando um paletó branco com gravata borboleta preta. Era o maestro Armando Belardi.  Não lembro qual música começaram a tocar. Mas naquele dia eu notei, logo à esquerda do maestro, bem na frente da fila dos violinistas, um músico compenetrado, vigoroso, de cabelos pretos cheios, de bigode, friccionado intensamente as cordas do violino. Era ele! O “MEU” vizinho da Rua Pirai! Era violinista da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, um artista! Só lembro que me emocionei e fiquei fã de assistir música de concerto até hoje. A Piraí também era cultura. Para mim foi, e até mais.

Eu não tinha ainda 10 anos quando começaram a erguer uma construção no fim do valo da Pirai, na curva da Rua Suassuí, que sai na Rua Araçatuba.  Várias semanas de curiosidade, vendo os trabalhadores erguer aquele prédio “moderno”, de um só pavimento.

Breve ficamos sabendo: era um prédio público, da Prefeitura, e descobrimos o que seria: uma “Biblioteca”.

Assim que abriu, virei freqüentador de primeira hora. Durante um bom tempo foi o meu destino diário, trocava a bola por ela. Ela era moderna, limpa, arejada, toda em linhas retas, e salas com várias estantes e muitos livros.

Podia se entrar livremente, falar com uma funcionária, e pegar um livro e ler tranquilamente.

Hoje aquele prédio é todo cercado por grades, para se proteger. Hoje tem a placa: “Teatro de Memória e Convívio da Lapa – Cecília Meirelles”.  No meu tempo não tinha grades e tinha convívio.

Dos vários volumes que folheei, uma coleção me atraiu e fiquei preso a ela por um bom tempo. Os três ou quatro volumes da Historia do Brasil, de Rocha Pombo. Era um jeito diferente de contar a Historia, que eu aprendia também na escola.  Eu chegava até a rir de certas descrições. E aquilo me fez gostar da História, para o resto da minha vida. Tanto que, depois de ter trabalhado por décadas, já ter minha empresa, e estar mais tranqüilo, fui fazer o que ficou pendente: fui fazer o curso de Mestrado na USP. Mestrado em que? Em História. A Piraí também foi cultura.

 

Texto publicado no site “www.cidadãoereporter.com.br”


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