Literatura

Primavera eterna (de Quatro Estações) , de Stephen King)

(Para o Clube de Leitura do Sírio)

Como pode a monotonia da vida de um prisioneiro proporcionar uma estória dinâmica?

Como coisas absolutamente corriqueiras podem assumir significados profundos?

Como a maldade e o pior caráter podem parecer coisas normais?

Como uma ficção pode ser retratada de maneira tão real, que se duvida que não seja?

Eu não sei como, mas certamente o autor sabe.

Porque tem o domínio da narrativa. E não precisou de enredos intrincados e nem de velocidade na sucessão dos fatos para criar uma leitura empolgante. E também não precisa de ante clímax, de sustos nem acontecimentos inesperados para criar suspense e emoção.

O narrador é também personagem o que torna a ficção realidade. Difícil não crer que as pessoas existiram: pois todas elas têm nome, e sobrenome. Sem exceção. Talvez uma técnica para dar realismo, assim como são citados os acontecimentos de fora do presídio, onde o tempo corria num outro andamento, muito mais ligeiro.

Os acontecimentos fora dos muros – fatos políticos, filmes em cartaz, começo do narcotráfico, e as coisas corriqueiras como as Páginas Amarelas ou as pop stars que se sucedem, dão uma sustentação cronológica aos fatos, dispensando a citação dos anos-calendário.

As crueldades, as baixezas, os vícios e sevícios, a sordidez, o sadismo, tudo o que de pior ocorre num ambiente como o de um presídio não é descrito com exclamações, nem com revolta. Não há adjetivos. Mas, para mim, é o tom monocórdio da narrativa que, não carregando nas cores do sensacionalismo, mas descrevendo fatos terríveis como corriqueiros torna-os ainda mais terríveis sem dizê-lo. O que de pior têm os seres humanos é exposto como cotidiano da vida. Daquela vida. É quando encontramos os valores (imorais) dos criminosos e, sobretudo, a ética dos cárceres.

A autoridade e o poder (da justiça?) ou a injustiça do poder humilha tanto que não provoca mais a revolta, simplesmente anula o revoltado.

Pequenos elementos são colocados, insignificantes, mas que prendem pela expectativa. E nada acontece a partir delas. Um pombo que retorna um tecido que poli pedras, pedras entalhadas ou polidas. O detalhe dessas presenças prende a atenção do leitor (pelo menos eu, leitor): que acontecerá com elas? Nada.

O que é marcante é a simplicidade da narrativa. Simples como alguém que conta uma estória. Não uma estória inventada, mas uma estória real. E o interesse em continuar a ouvir o narrador contando é porque ele – às vezes e muito sabiamente – interrompe a narrativa, para retomá-la em outro momento.

A narrativa, a maneira de contar é simples. Não tem frases lapidares nem páginas de digressões psico-filosóficas. Estas ficam por conta de quem a ouve (ou lê).

Mas sempre há frases que marcam: “… uma vida inteira na cadeia… transforma qualquer pessoa em posição de autoridade em amo e você no cachorro de todo amo. Talvez você saiba que virou um cachorro, mas como todos os outros também o são, parece que não tem muita importância.”

Livro pra se ler mais de uma vez e aprender como se escreve. Ótima escolha.


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