
(Para o Clube de Leitura do Sírio)
Procuro não ler os comentários sobre os livros que vou ler. Provavelmente para não me influenciar. Foi o que fiz com o “Se um viajante numa noite de inverno”.
Como demorava a entrega do livro impresso que encomendei, comecei a ler o texto na versão eletrônica. Mas meu I-Pad estava com problemas: sem nenhum comando, mudava a página que estava lendo. Pulava para trás, ou para frente, aleatoriamente. Só depois de ler alguns parágrafos, percebia. E aí ia procurar a pagina que estava lendo. Recebi o exemplar impresso, e levei i I-pad à BR4-Assistência Técnica, na Alameda dos Jurupis.
Aí, percebi que o exemplar impresso também estava com problemas. O texto me parecia saltar, um tanto desconexo. E como eu não conhecia nenhuma assistência técnica para levá-lo, continuei a leitura.
Mas não foi fácil. Desisti e retomei a leitura várias vezes. Se eu conseguira ler o Arquipélago Gulag até o fim, iria também ler “Se o viajante…”. Até é o fim. Mas Soljenítsin foi mais camarada.
Como habitualmente faço, à medida que leio, se algo me chama a atenção ou desconheço, procura pesquisar.
Li que sobre a história dos Cimbros (Sec. II). E sobre os Cimérios. Comecei a entender do que o autor tratava. Mas descobri que “apenas alguns poucos nomes pessoais da língua ciméria sobreviveram, em inscrições assírias”. E que o nome da Criméia não tem a haver com os Cimérios. E que a República Ciméria, de que eu nunca ouvi falar tinha um motivo: nunca existiu.
E quando começava a me interessar pela história, aparecia outra.
E inúmeros personagens começaram a desfilar, em estórias diferentes, que se sobrepunham, se interrompiam, se relacionavam ou não.
Em certo ponto, lembrei-me do Sérgio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, um dos maiores cronistas do Brasil, e do seu “Samba do Crioulo Doido”.
A princípio sem entender nada, comecei a perceber a intenção e técnicas do autor.
Mas percebi-me, lá pelas tantas, sendo envolto em uma rede de linhas entrelaçadas, ou entrecruzadas, mas que sequer eram da mesma teia.
Às vezes, achando que estava compreendendo, eu me perdia. E sentia que, pela minha incompreensão, eu ia afundar em uma fossa vazia, porque não encontrava firmeza no caminho que meu entendimento me levava. Mas continuei lendo, mesmo que às vezes, à noite, com sono, querendo seguir em frente, e não conseguindo, me sentia como que debruçado na borda de uma escarpa, temendo a vertigem e o vento que me empurravam para o sono profundo: para o pesadelo.
Geralmente, pessoas quando pensam no que estão lendo, olham para cima, talvez buscando uma referência na memória.
Quando realmente eu não conseguia compreender o que estava lendo, olhava para baixo, frustrado ou envergonhado pela minha ignorância, pensando: que raio que essa história aguarda, lá em baixo, seu fim? Como será o fim disso? Teria um fim?
Num trem noturno, se um viajante numa noite de inverno começasse a ler esse livro, não chegaria acordado à próxima estação. Mas eu insisti. E continuei lendo nos lapsos após cochilar e despertar do pesadelo, e cair novamente em sono. E via que as situações e personagens não eram do pesadelo.
Por fim, aceitei a dialética do autor, de contrapor antagonismos, de brincar com o leitor num jogo inteligente, porém que só ele conhecia as regras. Aí vi que eu não era um jogador. Mas o joguete.
Ora eu era um, ora eu era outro: leitor, personagem, autor. Não sabia quando o pronome eu, oculto ou não, era eu ou eu era ele.
O autor brincava comigo, ora de esconde-esconde, ora de siga-seu-mestre, ora de, na maioria das vezes, de João-bobo.
“Lá pelas tantas, lembrei-me do “Velho Guerreiro” e de sua frase lapidar: “Não vim para esclarecer. Eu vim para complicar”.
Sem dúvida, o autor desfilou sua inteligência impar, sua habilidade narrativa, seu grande conhecimento literário e sua sutil crítica ao academicismo – se é que ainda haja. E sobrelevou seu eruditismo, sua inventividade, sua criatividade, sua fertilidade em gerar estórias, personagens, locais, situações.
Mas declarando a intenção de colocar o leitor como protagonista senti que o protagonista não fui eu: foi o seu Ego.
Mas acho que usou e abusou do domínio da meta-linguagem, da inter-literalidade, da filosofia da literatura, não se enquadrou em nenhum gênero (nem em número, nem em grau) literário.
Pensei que ia ler um romance, ou um conto. Mas me deparei não com um, mas conjunto um conjunto de contos, que abordaram encontros e desencontros (mais os últimos que os primeiros), contos de aventuras, contos de espiões, contos de heróis de pouco caráter, de reis e rainhas, contos de gurus, contos de amor, inacabados, e até com sexo, expos toda uma teoria literária.
Embora reconhecendo o mérito e o brilhantismo do autor, eu não gostei – talvez por não conseguir alcançá-lo.
E lembrei-me do que disse a um colega deste grupo (ultimamente ausente): “Para mim, o importante é a estória e não o narrador”. Não foi este o caso.
Por fim (enfim!) pra mim foi o primeiro caso de… “contus interruptus”.